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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Obras de arte em áreas públicas fazem de Berlim uma galeria contemporânea a céu aberto

A figura de Marlon Brando como dom Vito Corleone num muro em Berlim / Foto: Fernanda Dutra
BERLIM - Desde que o Muro caiu, há 22 anos, o tempo em Berlim parece correr contra uma bomba-relógio. A cidade se apressa em direção ao futuro — não para esquecer o passado, mas simplesmente para deixá-lo para trás. Na fronteira, estão os artistas. Eles foram os primeiros a ocupar muitas regiões quase abandonadas, onde havia espaço e liberdade para criar. Ainda hoje, os bairros disputam o status de “o lugar para estar”. Áreas como Mitte, Kreuzberg e Friedrichshain contam essa história em fast-forward nos seus muros coloridos — há murais, stickers, estênceis e arte com semântica própria. Um roteiro nessas áreas exige olhos atentos e certa dose de curiosidade para adentrar em höfe (pátios) que, de fora, pouco revelam, e em prédios aparentemente vazios. Cafés e restaurantes, comida de rua deliciosamente calórica e lojinhas afagam os pés cansados nessa cidade que é um museu de arte contemporânea a céu aberto.

Bananas chancelam a qualidade de galerias e museus
Nem um pingo de tinta branca se vê no Kunsthaus Tacheles, um centro cultural que simboliza a cultura punk e alternativa da cidade e fica em Scheunenviertel, um sub-bairro de Mitte (região na área central da cidade, cujo nome significa justamente “centro”). De fora, você verá primeiro um grande mural com os dizeres “How long is now?”. Em péssimas condições, o prédio que já foi um shopping e uma prisão nazista chegou a ter sua demolição anunciada. Poucos meses depois da queda do muro, um grupo de artistas o ocupou e tornou-se uma “invasão artística” (art squad ), com oficinas de dança, teatro, arte de rua, ateliês e galerias. Desde 2000, o lugar está ameaçado de ser esvaziado porque os donos da área, que permitiam a ocupação, faliram.
Entrada do Tacheles, centro cultural que recebe mais de 400 mil turistas, em Berlim, mas está ameaçado de ser esvaziado / Foto: Fernanda Dutra
Completamente coberto de grafites, adesivos, pichações e com um odor não muito agradável, o Tacheles acabou se tornando uma grande atração turística: recebe mais de 400 mil visitantes por ano interessados na história alternativa de Berlim. Isso não quer dizer que somos bem recebidos sempre, já que estamos atrapalhando o trabalho dos artistas. Mas vale pelos cliques: a estética trash e poluída impressiona.
O Tacheles talvez seja o exemplo mais radical de contracultura que você vai encontrar nesta região. Se Scheunenviertel fosse um artista, ele estaria em seu auge. Passado o tempo de rebeldia dos 20 e poucos anos, viveria em sua melhor fase criativa, e já com dinheiro para tomar um bom vinho e morar num bom apartamento. Este foi um dos primeiros “lugares para estar” entre os artistas, por sua localização e imóveis baratos. O movimento logo chamou a atenção do mercado imobiliário, que tratou de comprar e restaurar antigos prédios.
Caminhar pela região, tão perto do centro, mas tão tranquila, é ouvir os próprios sapatos batendo nas calçadas. Nas principais ruas do bairro, os prédios restaurados abrigam bares da moda e galerias. A arte de rua se encontra nas paralelas, como a Gipsstrasse, onde resistem imóveis abandonados. Nesta curta rua, dois artistas se destacam: SP 38 e xooox, que têm ateliês no bairro e concentram sua produção por ali. O primeiro cola cartazes com mensagens críticas sobre as mudanças ocorridas em Berlim. Vi vários com a mensagem “Reclaim your city” (“Recupere a sua cidade”). São recorrentes seus questionamentos “Who kills Mitte?” (“Quem mata Mitte?”) ou “Quality street?” (“Rua de qualidade?”). Usando a técnica do estêncil, que emprega chapas para aplicação de imagens com spray, xooox critica o consumismo e a futilidade da moda. Mulheres em poses sensuais e melancólicas simulam catálogos fashion. Não é à toa que SP 38 e xooox atuam na região, acusada de ter perdido a essência alternativa.
Bananas pichadas por anônimos indicam as boas galerias de arte contemporânea em Berlim / Foto: Fernanda Dutra
E a discussão sobre arte se mantém quente por ali, nos bares ou nos muros. A Auguststrasse tem revisto um símbolo famoso na época em que as principais galerias se concentravam lá: uma banana, que um olhar destreinado logo diria ser igualzinha à que Andy Warhol fez para a capa do álbum “The Velvet Underground & Nico”, apresentando a banda. O artista Thomas Baumgärtel, que já pichou mais de quatro mil dessas bananas em museus e galerias do mundo inteiro desde 1984, jura que são diferentes. As bananas, que simbolizam a união da Berlim socialista e da capitalista (pois eram um item raro e desejado no lado oriental), tornaram-se um selo de qualidade de instituições de arte. Baumgärtel, porém, não é mais o autor das “novas bananas”, segundo meu guia pela região, o artista português Rui Calçada Bastos, dono da galeria Invaliden 1:
— Não víamos há muito tempo o símbolo. Agora, alguém está recuperando a ideia.
Vizinhas, as galerias Deschler, dedicada a arte figurativa e a novas mídias, e Wolfram Voelcker Fine Art, que comercializa e exibe obras importantes da arte moderna e contemporânea, foram laureadas com a banana.
Bastos mora em Berlim há nove anos, mas ainda se espanta com as mudanças rápidas que ocorrem ali.
Pintura em pátio da Rosenthalerstrasse, na região central de Berlim / Foto: Fernanda Dutra
— Há cinco anos, as ruas só tinham prédios mal conservados. Aquele é um dos poucos bares alternativos que sobrou — diz, apontando para o Zosch, que abriu em 1990 na Tucholskystrasse, uma espelunca estilosa com trepadeiras cobrindo as paredes e shows de jazz na adega às quartas e quintas.
Quase em frente, o Keyser Soze representa as mudanças: ocupa o térreo de um prédio cor creme, com mesas e cadeiras de metal polido na calçada e, dentro, uma decoração kitsch. Batizado em homenagem ao vilão que Kevin Spacey interpretou em “Os suspeitos”, está lotado do café da manhã ao lanche da madrugada (fecha às 3h).
O melhor desses dois mundos está na KW, a instituição que criou a Bienal de Arte Contemporânea de Berlim, em sua sétima edição em 2012. A KW oferece cursos e tem galerias, que não guardam acervo — uma indicação de que estão sempre abertas a novos artistas. Outro destaque deste pátio charmoso é o Café Bravo, em vidro e cromo projetado pelo americano Dan Graham, que tem como característica brincar com os ângulos.
Outro bom lugar para o brunch é o Strandbad-Mitte, que fica numa rua sem saída ali perto, de frente para um parque. As mesas na calçada são concorridas aos domingos.
Currywurst, o prato que dizem ser o favorito da chanceler alemã Angela Merkel, vendido no Konnopkes's Imbiss, na região central de Berlim / Foto: Fernanda Dutra
Uma noite inesquecível, porém, pede uma visita ao Clärchens Ballhaus. O salão de dança foi construído em 1905 e a casa guarda relíquias nem tão bem conservadas, como um lustre em pedaços (parte da estrutura foi bombardeada na guerra) e telefones na mesa. Há aulas e bailes de salsa e tango com um público que vai dos 20 aos 80 anos.
Nesse passeio pelo bairro judaico, fique de olho no chão. Há plaquinhas que informam nome, data e lugar de nascimento e morte em frente às portas das casas. Chamadas de “pedras no caminho”, são uma homenagem do berlinense Gunter Demnig às vítimas do nazismo.
O bairro vizinho Prenzlauer Berg tem semelhanças com Scheunenviertel. Alguns squads dão um ar rebelde à região preferida das famílias jovens. É ali que fica o Konnopke’s Imbiss, um trailer de currywurst que meu guia garante ser o preferido da chanceler Angela Merkel. A salsicha de porco com ketchup e curry é uma delícia. Chute o balde e peça como os alemães: com batata frita cheia de maionese.
Arte e crítica na rua com potencial para centro de cidade
O número 39 da Rosenthalerstrasse, na região central de Berlim, tem obras de El Bocho e Cupk / Foto: Fernanda Dutra
Berlim é famosa por não ter centros. O mais perto que se pode chegar dessa definição para Mitte é a área da praça Hackesher Markt. No nosso roteiro, sugerimos começar pela estação de metrô homônima e ir subindo a Rosenthalerstrasse até a praça Rosenthaler. A primeira parada, no pátio de número 39, já vale algumas horas de visita. Muitos tours especializados em arte de rua são vistos por ali — a atividade antes tão anarquista está se tornando parte de uma indústria. No mesmo lugar, veem-se os críticos. O equivalente das bananas para a arte de rua é um artista ainda anônimo que cola etiquetas de preço ao lado dos grafites. As obras podem valer de 1 euro a 1 milhão de euros, de acordo com o gosto dele — o que não deixa de ser um questionamento aos que saem das ruas para os museus.
Alguns desses artistas consagrados estão neste pátio. Olhe para o teto, logo na entrada, para ver Little Lutzi (Lucy), personagem de El Bocho em sua primeira fase. A história de Lucy está espalhada pela cidade. Da menina fofa surgiu uma mulher melancólica e chorosa, obcecada por matar seu gato com requintes de crueldade. Duas obras de Alias, alemão de Hamburgo, estão no pátio. O artista usa stickers em preto e branco com imagens de crianças. Também na entrada, note um menino sentado sobre uma bomba.
Os Hackesche höfe são oito pátios interligados com lojas e cinema, em Berlim / Foto: Fernanda Dutra
Nos principais muros internos, as pinturas estão sempre mudando. A mais popular atualmente deve ser a que retrata Marlon Brando caracterizado como dom Vito Corleone, seu personagem da trilogia “O poderoso chefão”. Compondo-se como um mosaico colorido de autorias diferentes, os muros têm imagens de felinos antropomórficos, hippies nus, personagens infantis etc.
Uma escada no fundo do pátio leva à galeria e livraria Neutotitan, especializada em arte. Títulos como “Street art in Berlin” do fotógrafo Kai Jakob, que nos ajudou a descobrir os autores de várias obras na rua, são encontrados por lá.
Dois museus completam o passeio. Um é o Centro Anne Frank, que faz um paralelo entre a história da autora do diário com a do Terceiro Reich. O outro é dedicado a Otto Weidt, o “Oskar Schindler de Berlim”. Fabricante de vassouras e escovas, Weidt protegeu seus funcionários judeus, falsificando documentos e subornando oficiais da Gestapo. É um lugar pequeno, mas comovente.
O Hackeshe Höfe é um agradável centro comercial composto de oito pátios. Entre as atrações, estão um cinema de filmes independentes, a editora e livraria de arte Gestalten e a galeria nova-iorquina especializada em fotografia Lumas.
A parede, sempre com uma nova pintura, e a entrada do Centro Anne Frank, na Rosenthalerstrasse, na região central de Berlim / Foto: Fernanda Dutra
Essa região tem vários restaurantes asiáticos. O Monsieur Vuong foi um dos primeiros e apadrinhou os outros. Com uma foto de Vuong adolescente recebendo os comensais, a casa oferece sopas e pratos da Indochina. E lota. Opção mais tranquila é a casa de chá Chén Chè, com belo jardim de inverno.
A rua tem várias lojas de rede, como qualquer área central de grande cidade (mas nem todas se dão ao luxo de ter uma obra de xooox empilhando roupas da fast-fashion H&M como se fossem lixo — está quase na esquina com a Linnien). Vitrines criativas se destacam. A Who Killed Bambi? Org vende só estilistas independentes. Com nome inspirado numa música da banda New York Dolls, a Personality Crisis é uma multimarcas internacional que promete não seguir tendências. E o antiquário Waahnsinn tem mobiliário cool que vale conhecer.

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